Mueda
Eis que o fundo da gaveta se descolou de ser tão velho, e, entre duas tábuas finas, Margarida encontrou um envelope amarelo-sujo e com nódoas de bolor. Ela não sabia que a gaveta tinha um fundo falso. Surpreendida e curiosa com o achado, a mulher abriu o envelope e deparou-se com uma fotografia a preto e branco, já quase sépia por ser tão antiga.
A imagem mostrava um grupo de militares de armas na mão, entre os quais um homem de farda a apontar um revólver à cabeça de um homem preto, com as mãos atadas atrás das costas. Por detrás do grupo de militares, viam-se corpos no chão. A fotografia tinha um carimbo a indicar o nome da empresa em Nampula que a revelara e, escritas à mão, estavam a palavra “Mueda” e a data de 16 de junho de 1960.
Margarida Sousa Ferrão acabara de celebrar o seu aniversário. Ela era uma mulher idosa, mas continuava a ser ágil, com energia para manter a casa e fazer caminhadas diárias. Tinha uma empregada que trabalhava lá em casa umas horas por semana, mas certas coisas só Margarida podia fazer, como organizar a despensa, pagar as contas mensais ou limpar gavetas com memórias antigas, que ela não conseguia deitar fora.
Num dia de primavera, tempo de se fazer uma limpeza geral, Margarida decidiu lidar com uma gaveta no roupeiro embutido no quarto de hóspedes, a de baixo, rente ao chão. Com dificuldade, retirou a gaveta e despejou o conteúdo em cima da colcha velha, que estava em cima da cama para acolher pó e detritos. Essa era a gaveta das memórias perdidas, onde retalhos da sua vida e das dos seus pais e filho se encontravam, todos misturados. Não é que ela não desse valor a esses restos de vidas, mas, de facto, eram objetos fúteis: um carrinho do filho sem rodas; o relógio barato do pai, que há muito deixara de funcionar; flores de plástico que a sua mãe prezava. Uma gaveta cheia de coisas semelhantes que ela não conseguia deitar no lixo porque seria como se negasse a extensão de vida desses entes queridos. Assim, sobre a cama, ela deparou-se com um monte de objetos inúteis, entre eles a fotografia escondida.
Margarida sentiu-se quebradiça e empalideceu. Suores frios forçaram-na a puxar uma cadeira, onde se sentou com a fatalidade de quem não consegue aceitar o que vê. As mãos tremeram tanto que a fotografia caiu no chão. Ela nem notou que a gata estava a brincar com as flores de plástico.
Não pode ser! É impossível! Devo ter visto mal. Estes homens são tão jovens que têm toda a sua vida à frente, mas aqui estão, nesta fotografia, a cometer horrores… Quem colocou a fotografia neste fundo falso? Tenho de olhar bem desta vez.
Com dificuldade, Margarida levantou-se da cadeira. Foi com algum esforço que se abaixou para apanhar a fotografia errante quase debaixo da cama. O processo de se levantar foi mais difícil, pois ela sentia-se fraca. Agarrou-se à berma da cama, endireitou-se, olhou de novo para a imagem e voltou a ler a mensagem escrita à mão. Não se lembrou de nada associado às referências.
Receando o que iria encontrar, investigou no seu computador o que estava escrito no verso da fotografia. Depois de ler os resultados, começou a chorar lágrimas azedas. Lambeu as lágrimas, pingos de vinagre, do canto da boca. Gemeu e, agitada, moveu-se de frente para trás sentada na cadeira, olhando para os cabeçalhos das notícias. As lágrimas eram pesadas, tanto quanto a pressão sentida no peito, e caíam gordas, molhando-lhe a camisa. Não conseguia conciliar a informação com as suas memórias de infância. A informação desencadeou uma onda de recordações do tempo em que era menina.
Lembro-me de que a minha mãe estava linda no dia em que fomos ao cais receber o meu pai. Eu era uma criança tímida e tentei refugiar-me por trás das saias da minha mãe. Aquele homem, tão alto e forte, agarrou-me pela cintura e rodopiou-me. Ah, o frisson de quase tocar no céu com o meu pai a rir às gargalhadas! O reencontro foi uma alegria, embora eu não me lembrasse do cheiro dele quando me abraçou. Que doçura que ele era, tão terno e gentil! Brincava comigo com a casa das bonecas que trouxe de Moçambique, fazíamos de conta que dávamos o biberon às bonecas. Não percebo! O meu pai fora um militar de carreira e nessa altura teria estado colocado em Nampula.
A informação num artigo de jornal explica claramente que, em 16 de junho de 1960, houve uma manifestação de camponeses desarmados, homens e mulheres, que reivindicavam melhores salários e autonomia administrativa. Essa manifestação foi dizimada num massacre, cujas repercussões deram origem à FRELIMO e à luta armada contra o imperialismo colonial português.
Que estranho ele ter guardado uma fotografia de um crime de guerra… O homem com o revólver é, sem dúvida alguma, o meu pai. O mesmo que brincou comigo e me deu tanto afeto. Com nódoas indeléveis de sangue nas mãos, ele fez-me carícias. Como é possível ele ter matado a sangue-frio prisioneiros indefesos? Como poderei dizer ao meu filho que o seu avô, padrinho de batismo, era um criminoso, capaz de tal chacina?
Margarida correu para o quarto de banho e vomitou na sanita, sempre agarrada à fotografia. Cuspiu nela baba e ranho. Depois, foi buscar um saco de lixo e, regressando ao quarto, varreu com as mãos o monte de recordações e encheu o saco de agonias. Ela pensou no neto, o Zezinho, de pele escura como a da mãe, voltou ao computador e escreveu um email ao filho a contar tudo.
Não mais o segredo dos racistas! Eles estão entre nós, entremeados no nosso convívio, e é urgente que as memórias do que fizeram sejam assumidas por todos nós para que Mueda não seja esquecida pelos portugueses.