Poesia em Percurso, 2024, Moonwater Editions, Ponta Delgada.

 

 

POEMA DO TEMPO BRANCO

A obscuridade reflete-se no cristal dos espelhos

Onde pássaros riscam o brilho dos olhos.

Contemplamo-nos, sem pudor ou emoção,

Despidos das horas mais completas

Em que, nus e inteiros por dentro,

Buscámos o nome das coisas

Na oceânica tarefa de inventar o dia.

 

Queda-se o véu do tempo,

Suspenso na aparência dos seus desígnios,

E nas franjas da colcha branca

Resume-se a clara e concreta certeza da lucidez.

 

Para quê falar dos pássaros?

Invadiram as paredes caiadas da quotidianidade

E, tornados nossos dedos, com eles convivemos.

Para quê falar do brilho dos olhos?

Neles refletimos a liquidez da esperança

E os estilhaços do espelho.

 

É obscura a dualidade duns olhos

Quietos e calados, rebentando no silêncio,

Mas neles o tempo adquire certeza.

As Mulheres do País da Tarde

Dobram-se as mulheres no país da tarde,

Já sem ventre, de gastas que estão.

Dobram-se as mulheres, rosto no chão

De suor e sangue, corpo que arde.

 

Choram as mulheres no cair da tarde,

Baixinho, sem dor, cinzentas de estar.

Choram as mulheres, rostos de mar,

Num carpido de espuma ou sons de alarde,

 

Fica nas mãos e nos braços a ausência

Dos filhos que foram o calor da existência.

Ficam no corpo rugas de pranto,

Nos olhos a distância, ladainha de canto.

 

Dobram-se as mulheres no país da tarde.

Mulheres já sem dor, que o amor

Já se foi. Mulheres sem ardor,

Que a vida roubou o riso que arde.

 

PALAVRAS DE RESISTENTE

Como rochas sedentas pelas ondas

Aqui me fico à espera da maré alta,

Escrevendo nas linhas d´água tantas perguntas

Na volta das respostas que eu ouvia.

Como um galho estalado pelo meio

Aqui me fico à espera das raízes

Violadas pela espada que me abria,

E enganada por palavras de enredeio.

Mulher, no feminino,

Aqui estou para ser contada

Aqui estou eu, resistente,

Esperando que as palavras que semeio

Não se enrosquem no sargaço

Nem se estalem pelo meio.

São palavras de tecedeira,

Mulher dura e arregateira,

São palavras de parideira

Escritas neste espaço

Onde eu resisto a vida inteira.